O arquipélago da Teoria da Evolução de Darwin é uma agradável surpresa para quem visita o Equador. Um lugar para curtir a natureza em seu estado mais puro

 

Pense em um lugar onde dóceis leões-marinhos, iguanas, tartarugas, fragatas e pinguins caminham praticamente aos seus pés. Em ilhas quase desertas, habitadas por animais que não existem em nenhuma outra parte do mundo. Nada de muvuca, música no último volume e vendedores ambulantes nas areias das praias. Agora pare de imaginar, pois esse lugar é real – e seu nome é Galápagos.

Provavelmente você já deve ter ouvido falar bastante desse arquipélago remoto do Oceano Pacífico, a mil quilômetros da costa do Equador: foi ele que inspirou o cientista Charles Darwin a desenvolver a Teoria da Evolução das Espécies, em 1835. Pois bem, de lá para cá, Galápagos mudou pouco. As praias continuam quase sem ocupação, boa parte das espécies de pássaros pesquisadas naquela época permanece ali e a natureza ainda dá as cartas.

Com uma diferença: suas ilhas estão cada vez mais fáceis de serem exploradas. É quase um pulinho com os voos diários que partem de Quito, a capital equatoriana, e Guayaquil, a maior cidade do país, e pousam na ilha de Baltra, uma das portas de entradas do arquipélago. Sem falar que a companhia aérea Tame passou a oferecer o trajeto direto de São Paulo a Guayaquil, feito em seis horas.

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Antes de seguir mar adentro, há um rigoroso controle já ao desembarcar do avião. O fato de a ilha ficar no Parque Nacional de Galápagos (PNG), uma área de proteção ambiental, proíbe a entrada de qualquer tipo de comida vindo de fora. Levar um animal doméstico? Nem pensar. E não é só: ninguém mora ou permanece mais de três meses lá sem autorização prévia do governo equatoriano.

No ano passado, a lista de exigências ganhou um item a mais: todo visitante deve fazer um pré-registro no site do Conselho Governamental de Regime Especial de Galápagos (gobiernogalapagos.gob.ec) e apresentá-lo na imigração, na chegada ao Equador.

Não há resorts, piscinas de borda infinita nos hotéis, beach clubs ou baladas que seguem pela madrugada. O que existe é um recanto natural onde os animais chegaram sem interferência humana. E é essencial manter as coisas assim, para preservar as delicadas atrações. Por isso, o governo equatoriano restringiu o acesso de turistas – apenas 150 mil por ano – e ainda cobra uma taxa caríssima para entrar no parque: são US$ 100 por pessoa (exceto no caso dos residentes em países do Mercosul, como o Brasil, que pagam metade).

Para conhecer as ilhas, só de barco ou em passeios disponíveis nas agências de turismo local. Por essa razão, os minicruzeiros são a melhor maneira de explorar esse arquipélago formado por 13 ilhas maiores, seis médias, 40 pequenas e incontáveis ilhotas. Navios de pequeno e médio porte, como o iate La Pinta, para somente 48 pessoas; o Galapagos Legend, para cem passageiros, e o mais recente a se juntar ao time, o Silver Galapagos, da Silversea, com a mesma capacidade do Legend, percorrem as principais atrações em quatro, cinco e oito noites. Todos zarpam de Puerto Baquerizo Moreno, na Ilha de San Cristóbal, ou de Puerto Ayora, a capital da Ilha de Santa Cruz.

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A vantagem é que o trajeto entre elas é feito quase todo à noite e, ao amanhecer, quando o comandante avisa no alto-falante o nome da ilha em que o barco acaba de atracar, você abre a janela e… Surpresa! É sempre uma paisagem diferente da outra. A explicação, claro, é geológica: apesar de serem todas de origem vulcânica, as ilhas são diferentes entre si, seja na cor do solo, da água do mar e quanto aos bichos que as habitam.

Os barcos permanecem atracados por algumas horas em algum ponto notável, para os visitantes realizarem a sua única missão: descer em botes infláveis para fazer expedições pela natureza. As atividades em terra firme acontecem duas vezes ao dia, uma pela manhã e outra à tarde, sempre acompanhadas por um naturalista dotado de boa vontade, simpatia e um interesse genuíno pelos animais que habitam a região. A programação varia: tem observação de aves, caminhadas por trilhas diante de paisagens dramáticas, kayaking, mergulho com snorkel e até dá para nadar ao lado de tubarões-baleia.

Durante cada parada, os grupos de passageiros, divididos de acordo com o idioma (inglês, espanhol, italiano…), aprendem exatamente o que Charles Darwin descobriu há quase 200 anos: a origem dos animais na ilha, as adaptações da seleção natural e os hábitos das espécies endêmicas – ou seja, que só existem por lá. Isso porque cerca de metade das aves observadas é exclusiva, e ao menos 90% dos répteis também. As iguanas, presentes em número maior que o de habitantes do arquipélago inteiro, são um exemplo emblemático: há espécies terrestres, marinhas (as únicas no mundo) e as híbridas, aquelas capazes de viver na terra e no mar. Acrescente a essa lista as raras tartarugas gigantes, os leões-marinhos, os tubarões e mesmo os peixes, que podem ser observados em 70 pontos de mergulho do arquipélago.

Essa variedade de espécies não foi parar em Galápagos à toa. Graças a um fenômeno raro, quatro correntes oceânicas convergem para as ilhas e concentram uma quantidade incrível de nutrientes, como o plâncton, uma fonte de alimento capaz de atrair ao menos 7 mil tipos diferentes de animais para a região. Entre eles, os boobies, os famosos pássaros de patas azuis que viraram símbolo da ilha, estampas de canecas e camisetas, bichos de pelúcia, chaveiros… Eles são tratados como celebridades por ali, e agem como tal: param para fotos e não hesitam diante da aproximação humana!

Este é, inclusive, um fato curioso sobre os animais da ilha: eles não fogem das pessoas. São tão dóceis que foi preciso criar uma regra onde é o turista quem deve respeitar o espaço dos bichinhos, mantendo sempre uma distância mínima de dois metros deles. Algo às vezes difícil de acatar, porque uma hora ou outra você vai topar com caminhos tomados por preguiçosas iguanas e leões-marinhos folgados interditando o fluxo da trilha. Aí, é se desdobrar para atravessar…

 

De ilha em ilha

 

Como nenhuma ilha de Galápagos é igual à outra, cada vez que o barco atraca é uma experiência diferente. A Ilha Espanhola tem duas versões: de um lado, areias branquinhas e mar azul Caribe, bom para nadar e fazer snorkeling junto a tartarugas e leões-marinhos. Do outro, muda de feição e ganha pedras e pássaros exóticos, como os boobies, os albatrozes de Galápagos e os píqueros de Nazca.

A Ilha Rábida, com seu solo avermelhado, foi a eleita pela colônia de leões-marinhos, que nem dá bola para os turistas que desembarcam ali para uma tarde inteira esticados ao sol ou para mergulhos livres. Na vizinha Bartolomé, a mais fotogênica delas (graças à Roca Pináculo, a rocha pontiaguda, símbolo do arquipélago), é bem provável que você encontre pinguins. Se eles não aparecerem, pelo menos você terá a chance de ver Galápagos pelo mesmo ângulo que aparece nos cartões-postais: do alto de um monte de 114 metros de altura, acessível depois de encarar 365 degraus.

A Ilha Seymor Norte, pertinho de Baltra e figurinha fácil nos passeios bate-volta vendidos nas agências de turismo, é a morada das fragatas e gaivotas de rabo bifurcado. Fernandina, a mais distante das ilhas quando o ponto de referência é Puerto Ayora, não raro recebe a visita de baleias. Do Espinosa Point, a maior atração de Fernandina, é possível ver Isabela, a maior das ilhas, com cinco caldeiras de vulcões extintos (uma espécie de cratera que entrou em colapso). Por ali, a fauna se divide entre milhares de flamingos, tartarugas gigantes que adoram se esconder entre a vegetação (ou, pelo menos, tentam!) e as curiosas iguanas que sabem nadar.

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Nas águas da Ilha Floreana vivem os golfinhos e, em terra, são os pelicanos, os boobies, as fragatas… É ali que está o mais antigo correio das Américas, datado de 1792.

Os cenários mais diversos, no entanto, estão na Ilha de Santa Cruz, onde se concentra a maior população de Galápagos (são 20 mil habitantes). Nada que você vê ali existe em outra parte do arquipélago – a começar por um túnel que se formou com a passagem de lava após a erupção de um vulcão, e pelos Los Gemeles, dois grandes reservatórios de lava que, depois de sucessivas erosões, desenharam uma imensa cratera.

Silvana Cordier viajou a convite do Ministério de Turismo do Equador, com seguro da VitalCard

 

fonte: www.revistaviajar.com.br